Tragédia do Edifício Joelma: o incêndio, a história das Treze Almas, os milagres e a oração
O incêndio do Edifício Joelma, ocorrido em 1º de fevereiro de 1974, no centro de São Paulo, é uma das maiores tragédias da história brasileira. Em poucas horas, um prédio comercial de 25 andares foi tomado pelas chamas, deixando centenas de vítimas e cenas que marcaram profundamente o país.

O fogo começou durante uma manhã de trabalho aparentemente comum. Funcionários estavam em seus escritórios, pessoas circulavam pelos corredores e o expediente seguia normalmente quando uma falha elétrica provocou um incêndio que se espalhou com uma velocidade assustadora.

A tragédia ficou conhecida não apenas pelo número de mortos, mas também pelas dificuldades enfrentadas pelas equipes de resgate, pela falta de equipamentos adequados de segurança e pelas tentativas desesperadas de pessoas que procuravam escapar das chamas.

Entretanto, a história do Joelma possui outro capítulo que atravessou gerações e continua despertando curiosidade. Entre as vítimas estavam 13 pessoas cujos corpos foram encontrados dentro de um elevador e que nunca conseguiram ser identificadas. Elas foram enterradas lado a lado no Cemitério São Pedro, na zona leste de São Paulo, e passaram a ser conhecidas popularmente como As Treze Almas do Joelma.
Com o passar dos anos, os túmulos se transformaram em um local de devoção. Pessoas começaram a visitar as sepulturas para fazer orações, pedir ajuda e agradecer por graças que acreditam ter alcançado. Copos e garrafas de água passaram a ser deixados sobre os túmulos, e relatos de milagres ajudaram a fortalecer a tradição.
A história também se mistura a acontecimentos anteriores à construção do edifício, especialmente um crime ocorrido no mesmo terreno em 1948, conhecido como Crime do Poço. Essa coincidência alimentou histórias sobre uma possível maldição e transformou o antigo Joelma em um dos locais mais associados a relatos sobrenaturais da capital paulista.
Neste dossiê, você vai conhecer os principais fatos da tragédia, entender como surgiu a devoção às Treze Almas, conhecer os relatos de graças atribuídas a elas e encontrar uma versão tradicional da oração popular dedicada às 13 almas benditas.
O que era o Edifício Joelma?
O Edifício Joelma era uma construção comercial localizada na Avenida Nove de Julho, número 225, na região central de São Paulo, próximo à Praça da Bandeira.

O prédio começou a ser construído em 1969 e foi concluído em 1972. Com 25 andares, reunia garagens, lojas e escritórios comerciais. Uma parte significativa dos espaços de trabalho era ocupada pelo Banco Crefisul.
Na época, o edifício representava uma construção moderna para a região central da cidade. Seus andares comerciais recebiam funcionários de diferentes setores, que utilizavam o local diariamente para trabalhar.
Apesar da aparência de um prédio moderno, a construção apresentava problemas graves relacionados à segurança contra incêndios. Não havia escadas de emergência adequadas, brigada de incêndio organizada ou plano de evacuação capaz de orientar os ocupantes em uma situação de emergência.
Outro problema era a ausência de sistemas modernos de proteção, como sprinklers, que poderiam ajudar a controlar as chamas no início de um incêndio.
O prédio também tinha características internas que favoreceram a propagação do fogo. Divisórias, carpetes, móveis de madeira, cortinas e materiais sintéticos contribuíram para alimentar as chamas e produzir fumaça intensa.
Essas condições seriam decisivas na manhã de 1º de fevereiro de 1974.
Como começou o incêndio do Edifício Joelma?
O incêndio começou por volta das 8h45, no dia 1º de fevereiro de 1974, uma sexta-feira.
A origem foi identificada no 12º andar, em uma área ocupada pelo Banco Crefisul. A causa apontada foi um curto-circuito na instalação elétrica de um aparelho de ar-condicionado.
A falha provocou faíscas e deu início ao fogo, que encontrou materiais combustíveis no ambiente e se espalhou rapidamente.

Em poucos minutos, a situação ficou fora de controle. A fumaça tomou os corredores, as chamas avançaram pelos andares e os funcionários começaram a procurar uma maneira de sair do edifício.
O vento forte registrado naquele dia contribuiu para agravar a situação. O fogo encontrou condições favoráveis para se espalhar, enquanto a estrutura interna não oferecia proteção suficiente para impedir o avanço das chamas.
Segundo registros históricos, o incêndio atingiu 14 pavimentos e durou mais de três horas.
O problema não estava apenas na origem do fogo. A ausência de rotas de fuga adequadas e a dificuldade de acesso dos bombeiros aos andares superiores transformaram o resgate em uma operação extremamente complexa.
O Tribunal de Justiça de São Paulo registra que o edifício possuía uma reserva de aproximadamente 40 mil litros de água para combate a incêndios, mas os registros que alimentavam os hidrantes estavam fechados. Na prática, o sistema não ofereceu a ajuda esperada durante a emergência.
O desespero de quem tentava escapar das chamas
Quando o fogo começou a se espalhar, muitas pessoas tentaram descer pelas escadas. Entretanto, a fumaça e o calor tornaram os caminhos cada vez mais perigosos.
As escadas disponíveis não ofereciam a proteção necessária para uma evacuação segura. Sem uma escada de emergência isolada, a fumaça e as chamas alcançaram os espaços utilizados para circulação.

Algumas pessoas tentaram utilizar os elevadores, enquanto outras procuraram refúgio em salas, banheiros e áreas que pareciam oferecer alguma proteção.
Uma parte dos funcionários conseguiu chegar à cobertura do edifício, acreditando que poderia ser resgatada por helicópteros. O problema era que o prédio não possuía um heliponto adequado para pousos.

As aeronaves que se aproximavam encontravam dificuldades para realizar os salvamentos por causa do calor, da fumaça e da falta de espaço seguro.

As imagens transmitidas pela televisão mostraram pessoas nas janelas, na cobertura e em diferentes pontos da fachada. Algumas vítimas, diante da impossibilidade de encontrar uma saída, acabaram saltando do prédio.
Essas cenas provocaram enorme comoção e permaneceram na memória de quem acompanhou a tragédia.
Os bombeiros chegaram ao local e trabalharam durante horas para retirar sobreviventes e controlar o incêndio. As escadas Magirus, utilizadas nas operações, não alcançavam todos os andares necessários, o que limitou as possibilidades de resgate.

O heliponto da Câmara Municipal de São Paulo, localizado nas proximidades, foi transformado em uma base de atendimento. Helicópteros transportaram vítimas e ajudaram nas operações, enquanto médicos, enfermeiros e voluntários prestavam socorro.
A Câmara também funcionou como hospital de campanha, recebendo pessoas feridas e intoxicadas pela fumaça.
A operação exigiu um esforço conjunto de bombeiros, policiais, profissionais de saúde, militares e voluntários.
Quantas pessoas morreram no incêndio do Joelma?
O número de vítimas fatais aparece de maneira diferente em diversas publicações históricas.
Algumas fontes registram 180 mortos, outras apresentam 181, 187, 188, 189 ou até 191 vítimas. A diferença está relacionada aos registros produzidos na época, às revisões posteriores e aos critérios utilizados para contabilizar os óbitos.

A Agência Brasil publicou, em 2024, uma reportagem baseada na pesquisa do jornalista Adriano Dolph, autor do livro Fevereiro em Chamas. Segundo ele, foram localizados 181 laudos necroscópicos do Instituto Médico Legal relacionados à tragédia.

O Tribunal de Justiça de São Paulo apresenta o número de 180 mortos em seu material histórico. Já outras publicações, como o Memória Globo e reportagens de jornais, utilizam números diferentes.
Por isso, é mais correto informar que o incêndio deixou aproximadamente 180 mortos e mais de 300 feridos, explicando que os registros históricos não são totalmente uniformes.
Independentemente da contagem utilizada, o episódio provocou uma perda humana imensa e se tornou uma das maiores tragédias urbanas brasileiras.
A reportagem da Agência Brasil sobre os 50 anos do incêndio apresenta depoimentos de sobreviventes e explica como a pesquisa documental ajudou a esclarecer a quantidade de vítimas.
Quem eram as Treze Almas do Joelma?
Entre as vítimas do incêndio, 13 pessoas foram encontradas mortas dentro de um elevador do edifício.
Os corpos estavam em condições tão graves que não foi possível realizar a identificação individual. Sem nomes confirmados, os restos mortais foram encaminhados ao Cemitério São Pedro, na região da Vila Alpina, zona leste de São Paulo.

As 13 vítimas foram enterradas lado a lado, em sepulturas próximas. Uma placa no local registra a homenagem e apresenta uma frase que se tornou conhecida entre os visitantes:
“Somente Deus conhece seus nomes. Descansem em paz.”
A falta de identificação fez com que aquelas pessoas permanecessem anônimas até mesmo depois da morte. Não se sabe com segurança quem eram, quais eram suas histórias pessoais, suas famílias ou o que estavam fazendo exatamente no momento em que ficaram presas no elevador.
Com o passar do tempo, os túmulos passaram a receber visitas e manifestações de fé. As pessoas começaram a se referir às vítimas como Treze Almas do Joelma.

A história ganhou força porque os mortos não tinham nomes conhecidos e foram enterrados juntos, como um grupo de pessoas cuja identidade foi apagada pela violência da tragédia.
A partir dessa memória, surgiu uma devoção popular que continua existindo décadas depois do incêndio.
Como surgiu a lenda das Treze Almas?
A origem da devoção está relacionada aos relatos que começaram a circular depois do sepultamento das 13 vítimas.
Segundo a tradição popular, alguns visitantes e funcionários do cemitério passaram a relatar que ouviam gemidos, lamentos e pedidos de socorro próximos às sepulturas.
As histórias diziam que os sons vinham dos túmulos das pessoas que morreram no elevador. Como as vítimas haviam perdido a vida em meio ao fogo, surgiu a interpretação de que suas almas ainda estariam sofrendo com o calor e precisariam de ajuda espiritual.
Uma das histórias mais repetidas conta que alguém decidiu jogar água sobre as sepulturas depois de ouvir os supostos gemidos. De acordo com a tradição, os sons teriam diminuído ou desaparecido depois desse gesto.
Não existe comprovação científica de que vozes tenham sido emitidas pelas sepulturas ou de que as vítimas estivessem pedindo água. Esses acontecimentos pertencem aos relatos populares que ajudaram a formar a devoção.
O que pode ser confirmado é que a prática de molhar os túmulos se tornou parte da tradição das Treze Almas.

A reportagem da revista piauí, intitulada Água para o além, registrou a devoção no Cemitério São Pedro e entrevistou pessoas que visitavam as sepulturas para rezar, deixar água e agradecer por graças que acreditavam ter recebido.
A matéria também mostra que a tradição não pertence exclusivamente a uma religião. Entre os visitantes existem católicos, umbandistas e pessoas que seguem diferentes formas de espiritualidade.
Por que os devotos deixam água nos túmulos?
A água é um dos símbolos mais conhecidos da devoção às Treze Almas.
Segundo a crença popular, como aquelas 13 pessoas morreram em um incêndio, suas almas precisariam ser refrescadas. Por isso, os visitantes levam copos, garrafas e até recipientes maiores com água para molhar as sepulturas.

O gesto é interpretado pelos devotos como uma forma de carinho, cuidado e alívio espiritual.
A prática também se relaciona aos relatos de gemidos e pedidos de socorro que teriam sido ouvidos no cemitério. Na tradição, a água teria ajudado a acalmar as almas e se tornou uma espécie de oferenda simbólica.
Algumas pessoas deixam água em cada uma das 13 sepulturas. Outras utilizam regadores para molhar as lápides e fazem orações enquanto realizam o gesto.
Há também visitantes que deixam flores, velas, pequenos bilhetes e placas de agradecimento.
Em algumas ocasiões, devotos levam leite ou alimentos. A reportagem da revista piauí explica que o leite também passou a fazer parte de determinadas práticas, embora essa tradição tenha sido associada a uma crença antiga de que a bebida ajudaria pessoas intoxicadas pela fumaça durante o incêndio.
É importante destacar que a água deixada nos túmulos representa uma manifestação de fé. Não existe comprovação de que os mortos necessitem fisicamente desse líquido ou de que ele tenha algum efeito sobre suas almas.
Onde ficam os túmulos das Treze Almas?
As Treze Almas estão enterradas no Cemitério São Pedro, localizado na região da Vila Alpina, na zona leste de São Paulo.
O espaço se tornou conhecido entre pessoas que procuram locais de devoção popular e histórias relacionadas a fenômenos sobrenaturais.
As sepulturas ficam lado a lado e possuem uma área reservada para os visitantes. Com o passar dos anos, foi construída uma capela próxima aos túmulos, além de um espaço destinado a velas e manifestações religiosas.

O local também passou a receber placas, faixas e mensagens de agradecimento. Algumas pessoas deixam seus nomes e registram a graça que afirmam ter alcançado depois de fazer uma oração.
Uma reportagem publicada pelo UOL em fevereiro de 2024, quando a tragédia completou 50 anos, mostrou que o local recebe visitantes durante todo o ano, especialmente às segundas-feiras, tradicionalmente associadas às almas.
Segundo a publicação, a devoção atrai pessoas de diferentes partes do Brasil.
O antigo coveiro Renilton Dias dos Santos Queiroz, conhecido como Seu Gugu, contou que trabalhava no cemitério quando os corpos foram enterrados. Ele recordou que o sepultamento chamou a atenção de muitas pessoas, mesmo sem a presença de familiares das vítimas, que não haviam sido identificadas.
A reportagem também registrou que a capela é mantida com a participação dos devotos e da administração do cemitério.
Os milagres atribuídos às Treze Almas do Joelma
A fama das Treze Almas não surgiu apenas por causa dos relatos de supostas aparições. Com o passar dos anos, a devoção passou a ser associada a pedidos atendidos, promessas cumpridas e graças alcançadas.
Pessoas que visitam o Cemitério São Pedro afirmam que as 13 almas são bondosas e que ajudam aqueles que recorrem a elas com fé.

Entre os pedidos mais comuns estão saúde, emprego, proteção familiar, aprovação em provas, conquistas profissionais, problemas financeiros e realização de desejos pessoais.
É importante explicar que esses relatos são testemunhos de devotos. Não existe uma investigação científica ou um reconhecimento religioso oficial que comprove que as Treze Almas tenham realizado milagres. Ainda assim, as histórias fazem parte da tradição e ajudam a compreender a importância do local para quem acredita nessa devoção.
O relato de Luizão, funcionário do cemitério
Uma das histórias mais conhecidas envolvendo as Treze Almas está relacionada a Luiz Nunes, conhecido como Luizão, que trabalhava como zelador e jardineiro no cemitério.
Em um episódio apresentado pelo programa Linha Direta Mistério, da TV Globo, foi relatado que Luizão teria sofrido um infarto e recebido dos médicos uma avaliação muito grave sobre suas chances de recuperação.

Segundo o relato divulgado pelo programa, ele atribuiu sua recuperação a uma graça alcançada por intermédio das Treze Almas.
A história ajudou a fortalecer a fama das vítimas como intercessoras e aumentou o número de pessoas que passaram a visitar os túmulos.
O episódio não representa uma comprovação médica de intervenção sobrenatural. É um testemunho religioso atribuído ao funcionário e registrado em uma reportagem sobre a devoção.
Pedidos de emprego e aprovação em provas
Outra característica curiosa da tradição é a fama de que as Treze Almas ajudam pessoas que estão estudando ou procurando uma oportunidade profissional.
A revista piauí registrou relatos de frequentadores que associavam a devoção à aprovação em exames e conquistas acadêmicas.
Segundo a reportagem, candidatos aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil mantinham a tradição de deixar placas de agradecimento perto das sepulturas.
A crença de que as almas ajudam estudantes também aparece em relatos sobre concursos, vestibulares e provas importantes.
Por esse motivo, algumas pessoas procuram o local antes de exames ou retornam depois de receber um resultado positivo.
Graças relacionadas à família e à saúde
Os pedidos feitos às Treze Almas também envolvem questões familiares.
Há devotos que relatam ter alcançado ajuda em momentos de dificuldade financeira, problemas de saúde, conflitos domésticos e preocupações com filhos.
A reportagem da revista piauí registrou o testemunho de Francisca Confessor de Lima, que visitava as sepulturas e dizia pedir emprego e saúde para a família.
A mesma matéria apresentou o relato de Ana Guedes, que deixou uma mensagem de agradecimento por uma graça que atribuiu às almas. O pedido estava relacionado a uma dificuldade profissional enfrentada por sua nora.
No local, mensagens de agradecimento registram pedidos relacionados a moradia, faculdade, emprego e conquistas pessoais.
Esses registros mostram a força da devoção, embora não permitam verificar de forma independente a relação entre as orações e os acontecimentos posteriores.
A fama de ajudar pessoas em dificuldades financeiras
Entre os frequentadores do cemitério também existe a crença de que as Treze Almas ajudam quem enfrenta dificuldades com dinheiro.
Um dos trabalhadores entrevistados pela revista piauí, identificado pelo apelido Índio, contou que já havia recorrido às almas quando precisava de dinheiro e acreditava ter recebido ajuda.
Esse tipo de relato contribuiu para a reputação das Treze Almas como protetoras de pessoas que enfrentam momentos complicados.
A tradição não se limita a pedidos materiais. Muitos visitantes também procuram as sepulturas para agradecer, fazer orações pelos mortos e pedir proteção para suas famílias.
As placas de agradecimento
As placas são uma das manifestações mais visíveis da devoção.
Algumas apresentam frases curtas de agradecimento, enquanto outras registram o nome da pessoa que afirma ter recebido uma graça.

A presença dessas mensagens ajuda a entender como a crença se mantém viva. Cada placa representa a experiência de alguém que acredita ter sido atendido depois de fazer um pedido.
Em determinadas épocas, o número de placas era tão grande que os devotos procuravam deixar agradecimentos em quantidade correspondente às 13 almas. Com o tempo, a prática foi se adaptando, e algumas pessoas passaram a deixar uma única mensagem em nome de todas.
Para os visitantes, as placas não são apenas objetos colocados em um cemitério. Elas representam promessas, esperança e gratidão.
As Treze Almas são consideradas milagrosas?
Na tradição popular, sim. Muitas pessoas consideram as 13 vítimas almas bondosas e acreditam que elas podem interceder por quem pede ajuda.
Entretanto, é necessário diferenciar o significado religioso da palavra milagre de um acontecimento comprovado.
Quando um devoto afirma que conseguiu um emprego depois de rezar, por exemplo, ele pode interpretar a conquista como uma graça recebida. Para outra pessoa, o mesmo acontecimento pode ser explicado por fatores naturais, pela preparação profissional e pelas oportunidades que surgiram.
O respeito à fé não exige que todos os relatos sejam tratados como provas sobrenaturais.
O que está documentado é a existência de uma devoção consolidada, de visitantes que fazem promessas, de placas de agradecimento e de testemunhos publicados por veículos de comunicação.
A força dessa tradição pode ser percebida pelo movimento no cemitério, pela manutenção da capela e pela continuidade dos gestos de oração e agradecimento.
A oração das Treze Almas Benditas
A oração das Treze Almas Benditas é uma prece popular que circula em diferentes versões no Brasil.
Ela utiliza expressões tradicionais da devoção às almas e pede proteção, ajuda e intercessão diante de dificuldades. Embora seja frequentemente associada às Treze Almas do Joelma, não há documentação suficiente para afirmar que essa oração tenha sido criada especificamente depois do incêndio de 1974.
A fórmula também aparece em registros impressos anteriores e posteriores à consolidação da devoção do Joelma. Por isso, é mais correto apresentá-la como uma oração popular às 13 almas benditas, que muitos devotos também utilizam ao visitar as sepulturas das vítimas.
Uma versão tradicional é a seguinte:
ORAÇÃO ÀS 13 ALMAS
Oh! Minhas 13 Almas benditas, sabidas e entendidas, a vós peço, pelo amor de Deus, atendei o meu pedido. Minhas 13 Almas benditas, sabidas e entendidas, a vós peço, pelo sangue que Jesus derramou, atendei o meu pedido. Pelas gotas de suor que Jesus derramou do seu sagrado corpo, atendei o meu pedido.
Meu Senhor Jesus Cristo, que a vossa proteção me cubra, vossos braços me guardem no vosso coração e me protejam com os vossos olhos.
Oh! Deus de bondade, vós sois meu advogado na vida e na morte; peço-vos que atendeis os meus pedidos, livrai-me dos males e dai-me sorte na vida. Segui meus inimigos; que olhos do mal não me vejam; cortai as forças dos meus inimigos. Minhas 13 Almas benditas, sabidas e entendidas, se me fizerem alcançar esta graça (dizer a graça), serei eternamente devota de vós e, em agradecimento, vou rezar durante 13 dias 13 Pai-Nossos e 13 Ave-Marias e mandarei celebrar uma missa na intenção de vós.
Como rezar às Treze Almas e fazer um pedido?
As pessoas que seguem essa devoção costumam realizar suas orações de maneira simples.
Algumas visitam os túmulos no Cemitério São Pedro, fazem uma prece e deixam água sobre as sepulturas. Outras preferem rezar em casa, especialmente quando enfrentam problemas familiares, financeiros ou de saúde.
Entre os costumes associados à tradição estão:
- Fazer uma oração com respeito às 13 vítimas.
- Apresentar o pedido de maneira pessoal e sincera.
- Rezar a oração das Treze Almas Benditas.
- Se acreditar que recebeu uma graça, retornar para agradecer ou deixar uma mensagem de gratidão.
Essas práticas fazem parte da devoção popular e podem variar de pessoa para pessoa.
Quem deseja conhecer o espaço deve respeitar as regras do cemitério, a memória das vítimas e as demais pessoas que estão ali para visitar familiares.
O que realmente sabemos sobre as Treze Almas?
A história das Treze Almas mistura acontecimentos históricos, relatos de testemunhas, religiosidade popular e interpretações sobrenaturais.
Alguns pontos são documentados:
- O incêndio aconteceu em 1º de fevereiro de 1974.
- Treze corpos encontrados dentro de um elevador não foram identificados.
- As vítimas foram enterradas lado a lado no Cemitério São Pedro.
- Os túmulos passaram a receber visitantes e manifestações de fé.
- Devotos deixaram água, flores, velas, placas e mensagens de agradecimento.
- A devoção continua sendo praticada décadas depois da tragédia.
Outros elementos pertencem à tradição oral e aos testemunhos individuais:
- Relatos de gemidos e vozes próximos às sepulturas.
- A crença de que as almas precisavam de água para aliviar o sofrimento.
- Histórias de aparições no antigo edifício.
- Graças e milagres atribuídos à intercessão das 13 vítimas.
- A ideia de que o terreno teria sido amaldiçoado por causa do Crime do Poço.
Essas histórias não devem ser apresentadas como fatos cientificamente comprovados. Entretanto, fazem parte da memória cultural construída em torno do antigo Joelma e ajudam a explicar por que o local continua despertando tanta curiosidade.
As aparições e os relatos de vozes no antigo Joelma
Além da devoção no cemitério, o antigo Edifício Joelma também passou a ser associado a histórias de aparições e fenômenos inexplicáveis.

Depois da tragédia, algumas pessoas relataram ter ouvido gritos, gemidos e sussurros no prédio. Outras afirmaram ter visto figuras humanas ou rostos que associavam às vítimas do incêndio.
Essas histórias contribuíram para a fama de que o edifício seria mal-assombrado.
É importante lembrar que relatos de aparições não são provas de que fenômenos sobrenaturais realmente aconteceram. São experiências contadas por pessoas que interpretaram determinados acontecimentos de acordo com suas crenças.
O programa Linha Direta Mistério, exibido em 2005, dedicou um episódio ao chamado Enigma do Edifício Joelma. A atração reuniu histórias sobre o incêndio, o Crime do Poço, as Treze Almas e relatos de fenômenos atribuídos ao local.
A fama sobrenatural também foi alimentada por histórias relacionadas às filmagens do longa-metragem Joelma, 23º Andar, lançado em 1979. Integrantes da produção relataram acontecimentos que consideraram estranhos durante as gravações.
Esses relatos foram divulgados pela imprensa e passaram a integrar o imaginário popular em torno do edifício.
A história de Volquimar e a carta psicografada por Chico Xavier
Uma das histórias mais conhecidas relacionadas ao incêndio é a de Volquimar Carvalho dos Santos, uma jovem de 21 anos que trabalhava no setor de processamento de dados de um banco instalado no 23º andar do edifício.

No dia da tragédia, Volquimar tentou escapar com outras funcionárias. Segundo relatos apresentados posteriormente, o grupo procurou chegar à cobertura, mas as mulheres acabaram morrendo durante o incêndio.
Seu irmão, Álvaro, também trabalhava no prédio e sobreviveu. Ele conseguiu localizar o corpo da irmã no Instituto Médico Legal, depois de procurar informações sobre seu paradeiro.
A história ganhou outra dimensão dentro do espiritismo depois que a família procurou o médium Chico Xavier.
Segundo os relatos publicados na época, Chico Xavier teria psicografado mensagens atribuídas a Volquimar, dirigidas à mãe, Walkyria Farias Carvalho.
As mensagens foram posteriormente publicadas no livro Somos Seis, lançado em 1976. A obra reúne textos atribuídos a diferentes espíritos, incluindo Volquimar e outros jovens que morreram em circunstâncias trágicas.
Nas mensagens, a jovem teria procurado tranquilizar a família e explicar, segundo a interpretação espírita, sua experiência depois da morte.
Essas cartas não são documentos que comprovem cientificamente a comunicação com pessoas falecidas. Elas fazem parte da literatura espírita e da crença de que a comunicação mediúnica é possível.
A história de Volquimar também inspirou o filme Joelma, 23º Andar, lançado em 1979, com Beth Goulart no elenco.

A produção levou para o cinema a narrativa baseada nas mensagens psicografadas e ajudou a tornar a história ainda mais conhecida.
O Crime do Poço: a tragédia que aconteceu antes da construção do Joelma
A história do antigo Edifício Joelma possui um capítulo anterior ao incêndio de 1974.
Em 1948, existia uma residência no terreno onde, anos depois, seria construído o prédio comercial. Na casa morava Paulo Ferreira de Camargo, um professor de química de 26 anos, com sua mãe, Benedita, e suas irmãs, Cordélia e Maria Antonieta.

Em novembro daquele ano, as três mulheres desapareceram. Durante a investigação, a polícia passou a desconfiar de Paulo.
As investigações levaram à descoberta de um poço construído no quintal da residência. Dentro dele estavam os corpos da mãe e das duas irmãs, que haviam sido assassinadas a tiros.
Quando a polícia começou a escavar o local, Paulo pediu para ir ao banheiro. Ele se trancou no cômodo e tirou a própria vida com um tiro no coração.
O episódio ficou conhecido como Crime do Poço e provocou grande repercussão na cidade.
Na época, surgiram diferentes hipóteses para explicar a motivação dos assassinatos. Uma delas envolvia a oposição da família ao relacionamento de Paulo com uma namorada. Outra sugeria que ele teria cometido os crimes por causa de problemas de saúde das mulheres e da dificuldade de cuidar delas.
Entretanto, a motivação exata nunca foi esclarecida de maneira definitiva.
Um dos bombeiros que participou do resgate dos corpos morreu posteriormente em decorrência de uma infecção cadavérica, segundo relatos históricos sobre o episódio.
O crime contribuiu para que o terreno ganhasse uma reputação sombria antes mesmo da construção do edifício.
A história foi recuperada pelo programa Linha Direta Mistério e pode ser consultada no arquivo da TV Globo.
Existe uma maldição no terreno onde foi construído o Joelma?
A coincidência entre o Crime do Poço, ocorrido em 1948, e o incêndio de 1974 alimentou a ideia de que o terreno estaria amaldiçoado.
Na crença popular, o assassinato de três mulheres, o suicídio de Paulo Camargo, a morte de um bombeiro durante o resgate e, décadas depois, o incêndio com centenas de vítimas seriam acontecimentos ligados a uma energia negativa existente naquele local.

Algumas pessoas também relacionam a história à ideia de que o sofrimento das vítimas teria permanecido no prédio.
Entretanto, não existe comprovação histórica ou científica de que o terreno possuísse uma maldição ou que o incêndio tenha sido provocado por alguma força sobrenatural.
A causa identificada para o incêndio foi uma falha elétrica no sistema de ar-condicionado. A tragédia também foi agravada por problemas concretos de segurança, pela ausência de rotas adequadas de fuga e pelas dificuldades enfrentadas durante o combate às chamas.
A associação com o Crime do Poço pertence ao campo das interpretações populares e das histórias sobrenaturais.
A existência de dois acontecimentos violentos no mesmo terreno é uma coincidência histórica que ajuda a explicar a fama do local, mas não demonstra uma relação espiritual entre eles.
O que aconteceu com o edifício depois do incêndio?
Depois da tragédia, o edifício permaneceu interditado para uma ampla reforma.
A reconstrução durou aproximadamente quatro anos, e o prédio foi reaberto em 1978, depois de passar por mudanças estruturais.

O nome também foi alterado. O antigo Joelma passou a ser conhecido como Edifício Praça da Bandeira, denominação que aparece em registros e reportagens sobre o local.
O prédio continuou tendo utilização comercial, embora sua história tenha permanecido associada ao incêndio.
A mudança de nome não apagou a memória da tragédia. Até hoje, o antigo Joelma é lembrado pelas imagens do fogo, pelas histórias dos sobreviventes e pela devoção às Treze Almas.
Como o incêndio do Joelma mudou as leis de segurança no Brasil?
A tragédia expôs problemas graves na maneira como os edifícios comerciais eram construídos e preparados para situações de emergência.
Naquele período, a legislação de segurança contra incêndios em São Paulo era considerada insuficiente diante do crescimento das construções verticais e da quantidade de pessoas que circulavam diariamente nesses espaços.

O incêndio do Joelma, ocorrido apenas dois anos depois da tragédia do Edifício Andraus, aumentou a pressão por mudanças.
Em 7 de fevereiro de 1974, apenas seis dias depois do incêndio, a Prefeitura de São Paulo publicou o Decreto 10.878, que iniciou uma nova etapa de exigências relacionadas à segurança das edificações.
As mudanças incluíram medidas como rotas de fuga, escadas adequadas, equipamentos de combate a incêndios e exigências para construções existentes e novos projetos.
A tragédia também contribuiu para a criação de estruturas municipais voltadas à fiscalização e ao controle da segurança dos imóveis.
Com o passar dos anos, as normas foram ampliadas e passaram a exigir sistemas mais completos, como alarmes, extintores, iluminação de emergência, portas corta-fogo, brigadas e planos de evacuação.
A Prefeitura de São Paulo destaca que o incêndio foi um marco para a revisão das regras de prevenção e fiscalização de edifícios.
Essa é uma das consequências mais importantes da tragédia: o episódio mostrou que a segurança de uma construção não pode depender apenas da resistência de sua estrutura, mas também de sistemas de prevenção, manutenção e evacuação.
O Edifício Joelma permanece como uma das histórias mais marcantes de São Paulo
A tragédia de 1974 deixou uma marca profunda na história da cidade e na memória de milhares de brasileiros. As imagens do prédio em chamas, as tentativas de salvamento e o trabalho dos bombeiros continuam sendo lembrados como parte de um dos episódios mais dolorosos da história urbana do país.
O incêndio também provocou mudanças importantes nas regras de segurança das construções, mostrando a necessidade de prevenção, equipamentos adequados e rotas de fuga capazes de proteger a vida de quem ocupa edifícios comerciais.

Entre todas as histórias que nasceram depois daquela manhã, a devoção às Treze Almas ocupa um lugar especial. As 13 vítimas que nunca tiveram seus nomes identificados passaram a ser lembradas por meio de orações, promessas e homenagens.
Para alguns, elas representam almas bondosas que ajudam quem enfrenta dificuldades. Para outros, são principalmente símbolos da dor de pessoas que perderam a vida em uma tragédia e cuja identidade permanece desconhecida.

Independentemente da crença de cada visitante, os túmulos são um espaço de memória de 13 vidas interrompidas. A história das Treze Almas continua sendo contada não apenas pelos relatos sobrenaturais, mas também pela solidariedade, pela fé e pela necessidade humana de encontrar conforto diante de acontecimentos que não podem ser esquecidos.
